TEOLOGIA INCLUSIVA

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ESTUDO BÁSICO DE TEOLOGIA INCLUSIVA 

módulo 1 ao 5.



Comunidade Bom Pastor- Curso Básico de Teologia Inclusiva- Parte 1 Explicando Sodoma e Gomorra. Gênesis 19.


Estudos extraídos do site  teologiaeinclusão.blogspot.com


Há muitos séculos se tem atribuído a destruição de Sodoma e Gomorra à homossexualidade. Porém, um estudo atento do texto bíblico tem muito a nos revelar sobre as reais transgressões dessas duas cidades antigas. Nesse caso, a regra de ouro da hermenêutica (a Bíblia explica a própria Bíblia) será nossa principal ferramenta de análise e interpretação. Atualmente, uma lista de respeitados  teólogos defendem que o pecado de Sodoma nada tem a ver com homossexualidade, mas com falta de hospitalidade, xenofobia, orgulho, crueldade e egoísmo. Vamos conferir agora  alguns nomes dos estudiosos neste assunto:

Walter Wink – professor do Seminário Teológico, Doutor em Teologia (Th.D) do Union Theological Seminary de Nova York;

Quanto ao termo, é importante ressaltar que o uso da palavra sodomia como referência a atos genitoanais[1] data da Idade Média e foi um conceito consagrado pelo teólogo Tomás de Aquino.
Vejamos o que nos diz o mais conhecido e utilizado relato sobre Sodoma e Gomorra. As partes em negrito merecem destaque:
1) Ao anoitecer, vieram os dois anjos a Sodoma, a cuja entrada estava Ló assentado; este, quando os viu, levantou-se e, indo ao seu encontro, prostrou-se, rosto em terra. 20) E disse-lhes: Eis agora, meus senhores, vinde para a casa do vosso servo, pernoitai nela e lavai os pés; levantar-vos-eis de madrugada e seguireis o vosso caminho. Responderam eles: Não; passaremos a noite na praça. 3) Instou-lhes muito, e foram e entraram em casa dele; deu-lhes um banquete, fez assar uns pães asmos, e eles comeram. 4) Mas, antes que se deitassem, os homens daquela cidade cercaram a casa, os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos, sim, todo o povo de todos os lados; 5) e chamaram por Ló e lhe disseram: Onde estão os homens que, à noitinha, entraram em tua casa? Traze-os fora a nós para que abusemos deles. 6). Saiu-lhes, então, Ló à porta, fechou-a após si 7. e lhes disse: Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; 8- tenho duas filhas, virgens, eu vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto. 9) Eles, porém, disseram: Retira-te daí. E acrescentaram: Só ele é estrangeiro, veio morar entre nós e pretende ser juiz em tudo? A ti, pois, faremos pior do que a eles. E arremessaram-se contra o homem, contra Ló, e se chegaram para arrombar a porta. (ARA) – Grifo do autor.

Theodore W. Jennings – professor-assistente no Chicago Theological Seminary;

1º ponto a se considerar: o texto bíblico diz que todos os homens de Sodoma cercaram a casa de Ló. Ora, em qualquer sociedade, os homossexuais são minoria, portanto, aqueles homens, definitivamente, não eram homossexuais.  Sodoma não seria uma cidade tão numerosa e próspera se ali houvesse apenas homossexuais, na verdade, tal cidade nem subsistiria!

Para refletir: Já conheceu alguma cidade em que todos os habitantes fossem homossexuais?

2º ponto: Eles exigiam que os estrangeiros (anjos em forma humana) que ali estavam fossem postos para fora a fim de que fossem abusados (v. 5); Sua intenção era fazer o mal, humilhando os visitantes da forma mais vil possível:
“...Não se pode imaginar desprezo maior das práticas orientais de hospitalidade do que submeter hóspedes de sexo masculino a estupro por outros homens.” Comentário Bíblico, Editora Vida Nova, SP, 2010, p.123
Para refletir:  Por que os homens de Sodoma queriam ser apenas ativos na relação sexual? Por que isso é incompatível com a realidade dos homossexuais de fato?
Para refletir: já presenciou algum grupo de homossexuais que tenha invadido alguma casa com a intenção de violentar sexualmente algum visitante? Se a resposta for NÃO por que acha que alguns insistem em dizer que os habitantes daquela cidade eram homossexuais?

 John B. Cobb Jr. – Professor Emérito de teologia e co-diretor do Centro de Estudos sobre Processo da Faculdade de Teologia de Claremont, Califórnia;

3º ponto: Os sodomitas nutriam sentimento de xenofobia, ou seja, ódio a estrangeiros. Ló também era estrangeiro. Os sodomitas ameaçaram fazer mais mal a ele que aos próprios visitantes. (v. 9)
O texto revela claramente uma tentativa de violência sexual coletiva aos visitantes de Ló motivada pela xenofobia. Naquele sociedade patricarcal,  dominada pelos homens, os habitantes de Sodoma desejaram submeter os estrangeiros à situação mais humilhante que um homem poderia experimentar: ser usado como uma mulher; transgrediram, assim,  violentamente a lei da hospitalidade, sagrada para os povos semíticos (Êxodo 22.21). Na tentativa de humilhar os visitantes, mostraram-se maus, arrogantes e soberbos. Enxergar homoafetividade em tal gesto de violência demonstra uma completa ignorância ao que de fato a Bíblia diz. Se uma leitura atenta desse relato não bastar para se compreender o real pecado dessas cidades, seguiremos outra regra da hermenêutica, ou seja, examinaremos alguns textos paralelos:
Ezequiel 16.49 e 50:
49)Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. 50) Foram arrogantes e fizeram abominações diante de mim; pelo que, em vendo isto, as removi dali.
Lucas 10. 10-12:
10) Quando, porém, entrardes numa cidade e não vos receberem, saí pelas ruas e clamai: 11) Até o pó da vossa cidade, que se nos pegou aos pés, sacudimos contra vós outros. Não obstante, sabei que está próximo o reino de Deus. 12) Digo-vos que, naquele dia, haverá menos rigor para Sodoma do que para aquela cidade.

James B. Nelson – professor de ética cristã no United Theological Seminary em New Brighton e Minnesota;
O profeta Ezequiel, em harmonia com o relato de Gênesis, aponta a soberba e o egoísmo como pecados de Sodoma. O profeta também menciona a palavra abominação, que, também nesse caso refere-se à idolatria, como indicam as 9 ocorrências dessa palavra no mesmo capítulo (4ª regra da Hermenêutica: definir o sentido das palavras pelos versos que precedem e seguem a perícope em estudo). No texto de Lucas, Jesus faz um alerta: nem todas as cidades receberiam os discípulos enviados e como exemplo dessa falta de hospitalidade Cristo utilizou a cidade de Sodoma.  Nenhuma palavra sobre homoafetitivade consta em tais textos. Há, entretanto, uma referência muito clara sobre a rejeição aos mensageiros divinos. A relação entre o Evangelho e Sodoma é a recusa aos mensageiros divinos.

 Robert K. Johnston – Ph.D., professor de Teologia e Cultura no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena – Califórnia

Até mesmo os livros deuterocanônicos (das bíblias católicas) expressam o mesmo conceito acerca de Sodoma:
Eclesiástico 16.8
“Não poupou os concidadãos de Ló, aos quais detestou por seu orgulho.”
Sabedoria 19.13-17
13) Sobre os pecadores, porém, caíram os castigos de raios violentos, não sem as advertências que antes lhes tinham sido feitas; mas sofriam justamente por causa de suas próprias maldades, por terem praticado a mais detestável falta de hospitalidade. 14) Houve quem não acolhesse visitantes desconhecidos; outros reduziram à escravidão esses hóspedes que lhes faziam bem. 15) E não só isto: se ainda se aguarda julgamento contra aqueles que receberam com hostilidade a estrangeiros, 16) quanto mais contra os que atormentaram com cruéis sofrimentos aqueles a quem tinham recebido com alegria e que haviam participado dos mesmos direitos! 17) Por isso, foram feridos de cegueira como aqueles, à porta do justo, quando, envolvidos em densas trevas, cada qual procurava a direção da sua casa. (CNBB)
Há outros textos bíblicos e extrabíblicos que confirmam que os pecados de Sodoma e Gomorra, bem como as motivações para tão degradante tentativa de abuso. Como exemplo, citemos um trecho do Midrash Judaico:
“Os homens de Sodoma não se orgulhavam de outra coisa senão da fartura e da riqueza que possuíam [...]. E eles diziam: Se de nossa terra tiramos pão e minério de ouro, para que precisamos dos forasteiros? Não precisamos que venha a nós qualquer pessoa, pois vem apenas para tomar o que é nosso. Apaguemos, pois, de nossa terra as leis e costumes de ir e vir.” Midrash, San’hedrin 109 – A Lei da Torá, Editora Sêfer, p. 46
Como vimos, nenhuma só palavra sobre homossexualidade.

Para encerrar, leiamos o que dizem algumas traduções bíblicas:

Eles chamaram Ló e lhe disseram: “Onde estão os homens que vieram à tua casa ao cair da noite? Traze-os para fora. Queremos descarregar sobre eles a nossa fúria homossexual!” Gênesis 19.5 (Grifo do autor) Bíblia Sagrada, Edições Loyola.


“Não se esqueçam das cidades de Sodoma e Gomorra, e as cidades vizinhas, todas cheias de imoralidade de toda espécie, inclusive a paixão de homens por outros homens.” Judas 7 (Grifo do autor)  Bíblia Viva, Editora Mundo Cristão, 2010



PARTE 2-  CONVERSA FRANCA SOBRE LEVÍTICO:


Nesta parte, vamos falar sobre dois textos largamente utilizados para condenar pessoas de orientação homossexual: Levítico 18.21 e 22.13:
Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é. (18.22 ARA)
Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles. (20.13 ARA)
Antes de mais nada, é importante fazermos algumas perguntas sobre tais versículos:

1) Eles condenam a homoafetividade?

2) Por que as mulheres não foram mencionadas?

3) Por que a Igreja ignora a parte B de Levítico 22.13? O texto é claro ao ordenar a morte aos homens que praticassem atos homossexuais.

4) Por que tal ato é classificado como abominação?

5) Embora ambos os homens cometessem pecado, por que o texto é específico em condenar o papel passivo da relação homossexual (não te deitarás como se fosse mulher)?

Essas perguntas não são fáceis de responder, pois exigem um estudo com base no método histórico-crítico, ou seja, baseado nos aspectos socioculturais da época em que foi escrito.
Vamos às respostas:

1) Não. Os textos não condenam a homoafetividade, pois, como um conceito relativamente recente (as diferentes orientações sexuais apenas foram reconhecidas no século XX) não poderia haver nesse texto qualquer referência à homossexualidade. Sendo esta uma realidade comum a homens e a mulheres,  e o texto se silencia quanto à expressão sexual feminina, é muito evidente que a noção de sexo e sexualidade para os escritores e receptores originais de Levítico não corresponde à noção moderna.

2) As mulheres são mencionadas em todas as outras proibições sexuais de Levítico, porém, o sexo entre elas não é aí proibido, pois, segundo a crença da época, as mulheres não possuíam semente, isso era exclusividade dos homens. Não haveria, portanto, a perda da essência da vida, logo, atos íntimos entre elas sequer seriam considerados como sexo, logo, está explicada a ausência da proibição do sexo entre mulheres.
Segundo o pastor presbiteriano Alan Brash:
"A razão por que não se mencionam as mulheres - sugerem estudiosos do Antigo Testamento - é que se acreditava naquela época que a fonte total de uma nova vida vinha do homem, sendo que a mulher servia apenas de receptáculo no qual a semente se desenvolvia em uma nova vida. Numa pequena nação, cercada de poderosos vizinhos e almejando o crescimento, qualquer ação na qual as sementes de possível nova vida fossem desperdiçadas tinha que ser declarada pecaminosa".*
As proibições sexuais de Levítico (compreendidas na perícope presente entre os versículos 21 a 25) não se relacionam com orientação sexual, mas com atos específicos, não geradores de vida.  Havia uma razão especial para a proibição do sexo entre homens, porém, esta não se relacionava à afetividade, mas à perda da vida, representada pelo sêmen:
"Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do SENHOR, pelo que também o matou." (Gênesis 38.8-10)

3) As Igrejas não defendem a morte para os gays hoje em dia porque interpretam a Bíblia de forma seletiva, ou seja, só utilizam os textos por partes, aquelas que concordam com suas doutrinas. Usam a parte A e desprezam a parte B do texto, ignorando, também, a regra do paralelismo (semelhança entre textos diferentes), algo desonesto para com a Bíblia, com a Hermenêutica e com a Exegese. Alguns argumentam que não estamos sob as leis da Constituição Judaica, mas estamos sujeitos à Constituição de nosso país. Se pensarmos dessa forma, teremos de admitir que estamos dando às nossas constituições uma autoridade maior que a Bíblia. Será que países como o Irã estão cobertos pela autoridade bíblica porque  aprovam a pena de morte para atos homossexuais?

4) O sexo entre homens em Levítico é chamado de abominação porque tal palavra indica, dentre outras coisas, rituais idolátricos, muitos dos quais envolviam orgias as mais variadas. Sobre a perícope em estudo, vejamos o que dizem algumas obras:

“Várias atividades abomináveis são listadas aqui: oferecer crianças em sacrifício; ter relações homossexuais; ter relações sexuais com animais. Estas práticas eram comuns nas religiões e culturas pagãs, e é fácil ver por que Deus lidou tão duramente com os que começaram a segui-las." Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, CPAD, 2003, p.162
“Sabe-se que o sacrifício de crianças (21; Moloque era o nome de um deus conhecido em Canaã e em outros lugares), relações genitoanais entre homens (22) e relações tanto de homens quanto de mulheres com animais (23) eram parte da adoração pagã no Egito, em Canaã e outras regiões." Comentário Bíblico, Editora Vida Nova, SP, 2010, p.229-230
Em outro momento, Moisés, que também escreveu Levítico, fez menção a tais rituais utilizando o termo abominação para denominá-los:
"Nenhuma mulher de Israel deve participar de prostituição ritual, e nenhum homem de Israel deve participar de prostituição ritual homossexual. Nada obtido por meio de prostituição [ritual] heterossexual ou homossexual será levado à casa de Adonai, seu Deus, para cumprir um voto, pois essas duas coisas são abominação a Adonai, seu Deus." Deuteronômio 23-17 e 18 - Bíblia Judaica, Editora Vida, 2011.
Confira outros exemplos em: 1º Reis 11.5, 7; Provérbios 21.25; 2º Reis 23.13 Deuteronômio 27.15; Êxodo 8.26. O sexo entre mulheres era proibido em tais rituais, pois não possuía a semente necessária à celebração dos cultos da fertilidade! Eis outra razão por que o sexo entre mulheres não é mencionado em Levítico 18 ou em qualquer outro texto bíblico.

5) A condenação ao sexo passivo (próprio da mulher) associa o homem a um papel feminino, representando ultraje e humilhação para ele. A identidade judaica era patriarcal e androcêntrica, ou seja, centrada no homem, na sua masculinidade e “superioridade”. A mulher, naquela época, estava reduzida ao status de propriedade masculina. A melhor forma de se humilhar um homem nesse período era obrigá-lo a cumprir uma função feminina e nada melhor que o sexo para representar isso. Fazer isso voluntariamente desonrava o papel para o qual o homem havia sido criado. Quando lemos as narrações de Gênesis 19 e de Juízes 19, que relatam tentativas de abuso sexual entre homens, essa verdade fica bem clara:
“...Não se pode imaginar desprezo maior das práticas orientais de hospitalidade do que submeter hóspedes de sexo masculino a estupro por outros homens.” Comentário Bíblico, Editora Vida Nova, SP, 2010, p.123
“Na sociedade patriarcal primitiva semita e mesopotâmica, as diferenças sexuais influíam na hierarquia das relações sociais; os homens exerciam a função de dominadores e as mulheres de dominadas. Era, na verdade, uma relação de dominação-subordinação socialmente condicionada pela distinção sexual entre homem e mulher.” A Família no Antigo Testamento, CPAD, P. 138
Com esses esclarecimentos, fica difícil associar Levítico ao que se conhece hoje como homoafetividade. Entretanto, não faltam tentativas de alterar o texto original para adequá-lo ao pensamento cristão tradicional. Veja como a “Bíblia Viva”, Editora Mundo Cristão, 2008, omitiu a ideia original (a condenação do sexo entre homens, apenas) em Levítico 18.22:
“As práticas homossexuais são terminantemente proibidas! O homossexualismo é um pecado terrível!” 



Comunidade Bom Pastor - Curso básico de Teologia Inclusiva
3° Parte
Estudo de  Romanos Cap.1


Quando um cristão tradicional quer acusar um cristão membro de uma igreja inclusiva, o repertório é sempre o mesmo: uma pequena lista de textos bíblicos em que atos homogenitais (entre homens, apenas) são condenados: Levítico 18.22; 20.13; 1ª Coríntios 6.9 e 1ª Timóteo 1.10.  Entretanto, os acusadores cometeram um grave erro ao aplicar tais textos às mulheres, pois nenhum deles faz referência ao sexo entre elas. Nem mesmo Romanos 1.26.

Bom, a clareza depende de como lemos e interpretamos determinado texto. Uma das regras da Hermenêutica é comparar versículos paralelos – ou seja, que tratem do mesmo assunto – para esclarecer termos obscuros. É aí que os acusadores ficam encurralados! A condenação do sexo entre homens ainda encontra certo número de textos para embasá-la. Mas o que dizer do sexo entre mulheres? Além de Romanos 1.26, nada mais há nas Escrituras que se refira a ele. Se Paulo condena aí a orientação homossexual, comum a homens e mulheres, por que não fez o mesmo em outros textos? Uma coisa, porém deve ficar muito clara: as razões do sexo homogenital masculino condenado na Bíblia não são as mesmas de hoje.

É interessante notar como os acusadores esquecem-se por completo do contexto de seus versículos-bala! Ignoram as regras da hermenêutica e da exegese e depois nos acusam de manipular as Escrituras!  Bom, mas vamos ao texto em questão:

"26 - Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
27 - E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro."

Para analisar corretamente esse texto, precisamos de dois princípios da hermenêutica e da exegese: o contexto textual e sociocultural.

Quando analisamos o contexto textual, percebemos que os versículos 26 e 27 de Romanos 1 não são independentes, mas têm o seu conteúdo específico iniciado a partir do versículo 18: a impiedade dos homens e a supremacia de Deus em relação à Criação. A idolatria é um dos temas centrais, o que fica evidente entre os versículos 23 a 25 (Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém). O Versículo 26 inicia-se com a expressão por isso, ou seja, explica porque aqueles atos antinaturais foram cometidos.

A idólatra Roma servia a muitos deuses, bem como cultuava o hedonismo - o prazer como bem supremo. Paulo faz uma análise das consequências dessa realidade tão abominável diante de Deus. Uma das práticas comuns aos cultos romanos era a prostituição cultual. Ali, homens heterossexuais se envolviam em rituais homossexuais, o que justifica a expressão: deixaram a relação natural com a mulher. Ou seja, homens heterossexuais, trocaram uma conduta sexual que lhes era natural por outra, contrária à sua natureza, ou seja, uma prática homossexual, simplesmente como fonte de prazer e de expressão ritualística.
Quanto ao sexo entre mulheres, o texto de Paulo não é definitivo em afirmá-lo, havendo, inclusive, quem acredite que o Apóstolo mencionava o sexo anal heterossexual. Essa interpretação perdurou durante toda a Idade Média. Tudo indica, porém, que o texto esteja fazendo referência a duas cerimônias comuns entre os romanos daquela época: o culto a Dona Dea – restrito às mulheres, inclusive com a prática de cópula com animais; e o culto a Baco, ou bacanais, em que o incesto era parte dos ritos de iniciação. Todas essas práticas eram contrárias à natureza segundo o pensamento judaico, para o qual a função principal do sexo era a procriação.

O texto faz menção a relações contrárias à natureza praticadas em um contexto bastante específico: a adoração de ídolos. Nenhuma ideia há que reflita as relações homoafetivas e monogâmicas da sociedade atual.

O texto fala de homens e mulheres que praticaram perversões sexuais específicas, contrárias a sua natureza. Homens de orientação homossexual nunca deixaram a relação natural com a mulher (v.27), simplesmente porque isso nunca lhes foi natural! O sexo entre mulheres não está em questão visto que a penetração e a semente (exclusiva dos machos, segundo a visão da época) eram necessárias para que um ato fosse considerado de natureza sexual.

Alguns leitores podem estar pensando: “que nada, essa interpretação é forçada! Vocês estão deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas práticas homossexuais!” Bom, para provar que essa análise não é invenção de teólogos gays, vamos ver o que diz o comentário da Bíblia de Estudo Dake, CPAD, sobre esse texto:
“... Esse tipo de idolatria tem sido a raiz de toda imoralidade abominável dos pagãos. Os ídolos têm sido os padroeiros da licenciosidade (vv. 23-32). Quando davam forma humana a seus deuses, eles os dotavam de paixões e desejos e os representavam como escravos de infames perversões sexuais e como possuidores de poderes ilimitados de satisfação sexual. Deus permitiu que eles se entregassem a pecados homossexuais e perversões desse tipo.”[1]

Entretanto, não faltam tentativas de alterar o que Paulo escreveu. Vejam como a Nova Bíblia Viva, Editora Mundo Cristão, Edição 2011, traduziu Romanos 1.26:

“Esta é a razão pela qual Deus os entregou a paixões pecaminosas, a tal ponto que até suas mulheres se voltaram contra o plano natural que Deus tinha para elas e cederam aos pecados sexuais entre elas mesmas.”

Bom, diante de tudo o que expusemos, deixo uma pergunta aos nossos acusadores: Quem está deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas crenças?


COMUNIDADE  CRISTÃ BOM PASTOR-        Estudo Básico de Teologia Inclusiva Parte 4 -  OS EUNUCOS.



É consenso que a Bíblia não apresenta o conceito de homossexualidade tal qual o conhecemos. Entretanto, há relances que aludem implicitamente aos homossexuais nas Escrituras. Essa constatação é possível na figura dos eunucos. Não estou afirmando que o eunuquismo e a homossexualidade são termos sinônimos. Esses homens ocupam uma posição especial em Isaías 56, representando a classe dos sexualmente excluídos na Antiga Aliança, entretanto, o profeta os destina a uma promessa grandiosa de inclusão ao povo de Deus.

A figura do eunuco é decisiva nas palavras de Jesus no relato de Mateus 19.12. Visto que o único modelo de casamento da época era heterossexual, é óbvio que Cristo não poderia fazer qualquer referência a relações homoafetivas. A noção de orientação sexual na cultura judaica inexistia, Cristo usou um conceito que para nós seria rudimentar, mas que se relaciona diretamente à homossexualidade. Como assim?
Embora a história ateste alguns casos de relações homossexuais envolvendo eunucos, o conceito geral da Antiguidade Judaica era o de que eunucos não se casavam. Isso se relacionava intimamente à sua função primordial, não única: a guarda das mulheres. Cristo separa muito bem os tipos de eunucos: os de nascença; os feitos pelos homens; e os que se fazem eunucos pelo reino. A nós interessa o primeiro tipo: o eunuco de nascença.

A análise do termo usado por Cristo deve ser feita de acordo com o contexto sociocultural e linguístico da época. Os judeus conheciam dois tipos de eunucos de nascença, chamados especificamente de “eunucos do sol”. Eram assim chamados, pois nunca viram o sol sob outra condição, a não ser a de eunucos. Os eunucos do sol podiam ser homens com problemas congênitos ou homens sem libido que os impossibilitava ao casamento com uma mulher.

Segundo o Talmude, tais eunucos se caracterizavam pelos modos frágeis e femininos. Clemente de Alexandria, um dos pais da Igreja (século II), reafirmou que a visão judaica sobre tais eunucos os associava a homens que naturalmente se afastavam das mulheres. Esse “afastar-se naturalmente das mulheres” não indica apenas a falta de libido puramente, mas indica a falta de libido POR MULHERES. 

O contexto da fala de Jesus é o casamento heterossexual. O Novo Testamento judaico (Editora Vida) se refere aos eunucos de nascença como homens que nasceram sem o desejo deste casamento, ou seja, entre homem e mulher. Parece-me bastante claro que os eunucos do sol também incluíssem os homossexuais, ou melhor, se refiram a eles já que estes são bem mais numerosos que homens congenitamente incapazes.

Sendo assim, a homossexualidade torna-se inata e isenta de pecado. Conclusão a que muitas igrejas já chegaram oficialmente, como é caso da Igreja Católica. Sabe-se que a homossexualidade pode ter vários fatores em sua constituição, porém, a experiência dos homossexuais a situam ainda na infância, quando não há condição de escolhas sexuais conscientes. Embora a ciência apresente apenas indícios da origem da homossexualidade, o conceito de Cristo é o que deve prevalecer para o cristão homoafetivo.
Como percebemos, Cristo falou sim sobre pessoas homossexuais, não com a mesma complexidade que conhecemos hoje, claro, o mais importante é que ele não atribuiu nenhum caráter pecaminoso à condição sexual de tais pessoas.


TEOLOGIA INCLUSIVA PARTE 4: EFEMINADOS E SODOMITAS.



Finalmente chegamos aos últimos textos bíblicos que supostamente condenam a homossexualidade. Encerramos, com este artigo, a série de estudos que visam a desmitificar a ideia de que a Bíblia reprova a homoafetividade, como a conhecemos em nosso tempo e cultura.
O apóstolo Paulo foi o único escritor do Novo Testamento a fazer menção a atos homossexuais – entre homens, apenas, como já foi comprovado. O silêncio dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das Epístolas Gerais e do Apocalipse comprova que seus escritores estavam preocupados com outras questões, e o fato de apenas Paulo mencionar atos homossexuais – por 3 vezes, apenas – é indício de que os atos homogenitais não constituíam um tema central da abordagem e do conceito de pecados sexuais.

Na verdade, duas palavras utilizadas nessas ocasiões por Paulo são razão de grande controvérsia entre os eruditos. A maioria das traduções protestantes em língua portuguesa está baseada no trabalho de João Ferreira de Almeida. No Brasil, o trabalho de Almeida ainda é referência para muitos cristãos. Nos últimos anos é que outras traduções vêm ganhando o mercado editorial em terras brasileiras, o que representa uma mudança significativa, também, no sentido de alguns textos. Há avanços e retrocessos em tais traduções, das quais se destacam a Bíblia Judaica e a Bíblia A Mensagem, ambas da Editora Vida.

 A grande chave para se rejeitar tais textos como referência à homossexualidade é a dificuldade em saber com certeza o significado das palavras cujas traduções mais consagradas são “efeminados” e “sodomitas”. Tais palavras no original grego são, respectivamente: malakoi e arsenokoitai. Há dezenas de traduções para ambas as palavras, o que prova a incerteza dos eruditos sobre o que elas realmente significam no texto original. Palavras e termos como “devassos”, “travestis”, “catamitos”, “prostitutos masculinos”, “sodomitas”, “afeminados”, “pederastas” e “pedófilos”, dentre vários outros, já foram utilizados para traduzir malakoi e arsenokoitai.

Malakos (plural malakoi) aparece em outros textos bíblicos e significa, literalmente, macio, suave ao toque, mole. No texto de Paulo adquiriu um significado metafórico, figurado. Os dicionários teológicos associam malakos a um homem afeminado, mas também reconhecem que o termo pode significar pessoas em geral dadas aos prazeres da carne (Dicionário VINE, CPAD). Tal tradução é bem mais coerente, pois todos os outros pecados citados ali se referem a pessoas de ambos os gêneros. Algumas traduções como A Bíblia de Jerusalém (em português), La Bible du Semeur (em francês) e a Contemporary English Version (em inglês) já apresentam essa idéia. Há estudos que relacionam malakoi com a prostituição masculina praticada na época de Paulo, principalmente em Corinto, cidade famosa por sua depravação sexual. Algumas traduções como a “Today’s New International Version” (2001), a “New International Reader’s Version” (1996) e a “New Century Version” (1984) apresentam essa idéia. Embora não completamente precisas, essas traduções já representam um avanço ao dissociar os pecados dos malakos da homossexualidade moderna. A palavra sodomita também aparece na Bíblia como referência aos prostitutos do templo. Confira Deuteronômio 23.17 e 18, de preferência em traduções diferentes.

 O contexto cultural e religioso de Corinto justifica perfeitamente a teoria de que Paulo referia-se à depravação ritualística tão comum naquela cidade: Leiamos o que diz Lindolfo WEINGÄERTNER, na obra O contexto histórico das recomendações bíblicas quanto à sexualidade, Encontro Publicações, 2000. Paraná:

“Nos tempos apostólicos, as influências das religiões oriundas da Babilônia, Pérsia, Egito, e outras tinham invadido em larga escala a antiga religião dos gregos e romanos. Assim, no tempo do apóstolo Paulo, na cidade de Corinto, longe do lugar de origem dos cultos de fertilidade, existia um templo de Diana (chamada também de Ártemis) no qual atuavam centenas de prostitutas e prostitutos cultuais, que se entregavam sexualmente aos que frequentavam o lugar de adoração. O verbo ‘corintiar’ (korintiázein) era sinônimo de ‘viver em promiscuidade’. Nas cartas de Paulo aos coríntios ainda podemos sentir as dimensões da luta do evangelho de Cristo com a libertinagem e a promiscuidade sexual prevalecentes na cidade.”

Apenas o vocábulo “arsenokoitai” se refere exclusivamente a homens, pois em sua composição temos “arseno” que significa literalmente homem. Koitai significa “leito”, “cama”, numa conotação sexual. Portanto, arsenokoitai, significa o homem que mantém relações com outro homem ou, mais precisamente, o homem que penetra outro homem. Na época de Paulo, era comum a prática da exploração sexual, principalmente na relação senhor/escravo. Em Timóteo, Paulo menciona, juntamente com arsenokoitai, os traficantes de jovens escravos, o que reforça tal interpretação. Algumas traduções, valendo-se desse fato sócio-histórico, traduziram arsenokoitai como “pederastas” (Bíblia Vozes – 1995) e “pedófilos” (Bíblia dos Capuchinhos – 2002). Tais traduções, ainda que não completamente exatas, são coerentes com o contexto social do século I, pois revelam um caráter abusivo em tais relações.  Essa era a visão judaica do comportamento sexual romano: a violência, o abuso e a prostituição. Paulo, por ser judeu, cultivava tais conceitos. O mais importante é compreender que o apóstolo desconhecia o sentido moderno da homoafetividade. O que ele presenciava estava muito longe de representar o amor entre pessoas do mesmo sexo e seus relacionamentos estáveis. Alguns tradutores já perceberam que Paulo condena qualquer tipo de ato sexual não restrito às relações heterossexuais legais para a cultura judaica. Vamos ler novamente esses textos nas traduções já mencionadas no início deste artigo:

“Quem usa e abusa das pessoas, do sexo, da terra e de tudo que nela existe não se qualifica como cidadão do Reino de Deus. Estou falando de libertinagem heterossexual, devassidão homossexual, idolatria, ganância e vícios destruidores”.
 (1ª Coríntios 6.9 - Bíblia “A Mensagem”, 2011, Editora Vida)

“Temos consciência de que a Torah não tem por objetivo a pessoa justa, mas quem negligencia a Torah: descrentes, ímpios e pecadores, quem mata pai e mãe, assassinos, pessoas sexualmente imorais – quer heterossexuais quer homossexuais vendedores de escravos, mentirosos e perjuros, e quem age de forma contrária à sã doutrina”.
(1ª Timóteo 1.9 e 10 – Bíblia Judaica, 2011, Editora Vida)

Talvez nunca saibamos o que tais palavras significam, porém, é evidente que não se referem às relações homoafetivas e monogâmicas da atualidade. O que Paulo condena em tais textos é a prostituição, o sexo abusivo, cometido por solteiros (fornicação) fora do casamento (adultério) e o abuso entre homens. Outro ponto a ser considerado é o seguinte: se tal texto condena a homoafetividade, por que não menciona as mulheres?









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